Apresento este Blog através das palavras do Prof. Dr João Francisco Duarte Jr.

“A capacidade humana de atribuir significações decorre de sua dimensão simbólica. Por intermédio dos símbolos o homem transcende a simples esfera física e biológica, tomando o mundo e a si próprio como objetos de compreensão. Pela palavra, o universo adquire um sentido, e o homem pode vir a conhecê-lo, emprestando-lhe significações. Portanto, na raiz de todo conhecimento subjazem a palavra e os demais processos simbólicos empregados pelo homem.


“A linguagem é o nosso mais profundo e, possivelmente, menos visível meio ambiente”, afirmam Postman e Weingartner. É preciso que se compreenda o processo lingüístico para que se entenda o que significa conhecer. Não há conhecimentos sem símbolos. O esforço humano para compreender é o esforço para encontrar símbolos que representem e signifiquem o objeto conhecido. A consciência e a razão humanas nascem com a linguagem e só se dão através dela”.


João Francisco Duarte Jr.



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domingo, 16 de maio de 2010

A Literatura e a Psicologia



Com o título “Psicologia da Literatura”, pode-se designar o estudo psicológico do escritor, do tipo e do indivíduo, o processo criativo, o desempenho dos tipos e leis psicológicas presentes em obras literárias ou, finalmente, os efeitos da literatura sobre os seus leitores.

Dizendo sobre o fato psicológico da literatura, Roland Barthes afirma o seguinte:

O que se pode dizer acredita, é que a exploração da linguagem está no começo, ela constitui uma reserva de criação de uma riqueza infinita; pois não deve se acreditar que essa exploração é um privilégio poético, considerando-se que a poesia deve ocupar-se com as palavras e o romance com o “real”; é toda a literatura que é problemática da linguagem. (BARTHES, 1970, p. 79)

De acordo com Wellek e Warren (2003), a natureza do gênio literário sempre atraiu a especulação, e já no tempo dos gregos ele era relacionado com a “loucura”. O poeta é o “possuído”: ele difere dos outros homens, simultaneamente menos e mais, e o inconsciente do qual ela fala faz se sentir, ao mesmo tempo, como sub e supra-racional.

Outra concepção antiga e persistente afirma que o “dom” do poeta torna-se uma compensação:

(...) a Musa levou a visão dos olhos de Demôcoco, mas deu-lhe o adorável dom da canção (na Odisséia), assim como o cego Tirésias, é concedida a visão profética. Nem sempre, é claro, desvantagem e dom apresentam uma correlação tão direta, e a doença ou deformidade pode ser psicológica ou social em vez de física. O Poeta Pope era corcunda e anão; Byron era manco; Proust era um neurótico asmático, de ascendência parcialmente judaica; Keats era mais baixo que outros homens (anão); Thomas Wolfe muito mais alto (2,10 metros). A dificuldade com a teoria é justamente a sua facilidade. Após o acontecimento, qualquer sucesso pode ser atribuído à compensação, pois todos têm responsabilidades que podem servir-lhes de incentivos. Dúbia, certamente, é a difundida visão de que a neurose e a compensação diferenciam os artistas dos cientistas e de outros “contemplativos”: a distinção óbvia é que os escritores muitas vezes documentam os seus próprios casos, transformando suas moléstias em “material temático” (WELLEK e WARREN, 2003, pp. 94-95)

Machado de Assis era epilético, vesgo e mulato. As questões básicas a serem colocadas são estas: se o escritor, um neurótico (como Proust, que escreveu trinta páginas esperando o beijo da mãe para dormir) de onde tira o tema da sua obra ou é apenas a sua motivação? Outra questão: se o escritor for neurótico nos seus temas (como Kafka certamente o foi), o seu trabalho torna-se inteligente para os leitores? O escritor deve estar fazendo muito mais do que registrar um histórico do caso. Na afirmação de Wellek e Warren, o autor deve estar lidando num padrão arquetípico (qual Dostoievski em “Os irmãos Karamazov”) ou num padrão de personalidade neurótica amplamente difundido no nosso tempo.

A visão de Freud a respeito do escritor não é inteiramente estável. Como muitos dos seus colegas europeus, notadamente Jung e Rank, era um homem de cultura geral elevada que, respeitava os clássicos e a literatura alemã. Então, também descobriu na literatura muitos “lampejos” que anteciparam e corroboraram a seus próprios – em “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski, em “Hamlet”, de Shakespeare, no “Neveu de Remeau”, de Diderot, na obra de Goethe. Mas ele também pensava no autor, um neurótico obstinado pelo seu trabalho criativo, esquivando-se a um colapso e também a qualquer cura real.

O artista é originalmente um homem que se afasta da realidade porque não consegue entrar em acordo com a exigência de renúncia à satisfação instintiva quando ela se apresenta pela primeira vez e que, então, na vida da fantasia permite plana liberdade aos seus desejos eróticos e ambiciosos; mas ele encontra um caminho para sair desse mundo de fantasia e voltar à realidade; com os seus dons especiais, ele molda as suas fantasias em um novo tipo de realidade, e os homens concede-lhes justificativa como reflexos valiosos da vida real. Assim, por certo caminho, ele efetivamente, se torna o herói, o rei, o criador, o favorito que desejava ser, sem o caminho tortuoso de criar alterações reais no mundo exterior. (FREUD, 1961, p. 172)

Freud e Machado de Assis foram contemporâneos, sendo provável que o autor brasileiro jamais chegou a ler Freud, mas como diz o médico austríaco, criador da psicanálise, o escritor, alguém que sonha acordado, após realizar o sonho se valida socialmente. Em vez de alterar o seu caráter, ele publica as suas fantasias.

De acordo com críticos mais hodiernos, entre eles Ignácio de Loyola Brandão, Machado de Assis fez de sua heroína “Helena”, um tipo ideal de mulher, a que ele queria para si, e, diante da impossibilidade de tal sonho ser realizado, Helena morre, concomitantemente a seu sonho. Acaba se casando com Carolina, quatro anos mais velha que ele, e a quem dedicou um dos sonetos mais lindos da literatura brasileira: “foram anos idos e vividos”.

Aproveitando as palavras de Wellek e Warren (2003), em explanação um pouco confusa, na descrição de Freud, presume-se, dá-se conta do filósofo e do “cientista puro” juntamente com o artista, e, portanto, um tipo de redução “positivista” da atividade contemplativa ao observar e nomear em lugar do agir. Não faz justiça ao efeito indireto ou obliquo do contemplativo, às alterações no mundo exterior efetuadas pelos leitores dos romancistas e filósofos. Também deixa de reconhecer que a criação, ela própria um modo de trabalho no mundo exterior, pois, enquanto o sonhador se contenta em sonhar com escrever os seus sonhos, alguém esteja efetivamente escrevendo e se ocupando de um ato de exteriorização e de ajuste à sociedade.

No dizer de Wellek e Warren, a maioria dos escritores se esquivou a subscrever o freudianismo ortodoxo ou a completar o seu tratamento psicanalítico, onde alguns haviam começado. Não quiseram ser “curados” ou “ajustados”, pensando que deixariam de escrever se seguissem os métodos de seu psicanalista famoso, ou que o ajuste proposto fosse a uma normalidade ou a um ambiente social que rejeitavam como hipócrita ou burguês. Assim, W.H. Auden afirmou que “os artistas devem ser tão neuróticos quanto puderem suportar”.

Retomamos o ponto de vista de Wellek e Warren (2003), a teoria da arte como neurose suscita a questão da imaginação em relação à crença. O romancista é análogo não apenas à criança romântica que “conta histórias” – isto é, reconstrói a sua experiência até conformá-la ao seu prazer e crédito, mas também ao homem que sofre de alucinações, confundindo o mundo da realidade com o mundo de fantasia das suas esperanças e medos?

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