Apresento este Blog através das palavras do Prof. Dr João Francisco Duarte Jr.

“A capacidade humana de atribuir significações decorre de sua dimensão simbólica. Por intermédio dos símbolos o homem transcende a simples esfera física e biológica, tomando o mundo e a si próprio como objetos de compreensão. Pela palavra, o universo adquire um sentido, e o homem pode vir a conhecê-lo, emprestando-lhe significações. Portanto, na raiz de todo conhecimento subjazem a palavra e os demais processos simbólicos empregados pelo homem.


“A linguagem é o nosso mais profundo e, possivelmente, menos visível meio ambiente”, afirmam Postman e Weingartner. É preciso que se compreenda o processo lingüístico para que se entenda o que significa conhecer. Não há conhecimentos sem símbolos. O esforço humano para compreender é o esforço para encontrar símbolos que representem e signifiquem o objeto conhecido. A consciência e a razão humanas nascem com a linguagem e só se dão através dela”.


João Francisco Duarte Jr.



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domingo, 16 de maio de 2010

Conhecendo Álvares Azevedo 1831-1852

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 – 1852) foi o mais típico representante da “escola byroniana”, do ultra-romantismo, da poesia egótica. Sua obra é uma permanente antinomia: ingenuidade e satanismo, egocentrismo e auto-ironia, idealismo e realismo, desespero e humor, a pálida virgem e a prostituta sifilítica, amor e medo, Ariel e Calibã.



ÁLVARES DE AZEVEDO (São Paulo, SP, 1831 – Rio de Janeiro, RJ, 1852)

Nasce em São Paulo a 12 de setembro de 1831. Aos dois anos, vai para o Rio de Janeiro, onde faz os primeiros estudos. Em 1848, retoma a São Paulo e matricula-se no curso de Direito. Trava conhecimento com Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa e outros, que constituem a “Sociedade Epicuréia”, destinada a repetir a existência boêmia do poeta inglês Byron. Acometido de tuberculose, falece em abril de 1852, aos 21 anos de idade, sem concluir o curso e inédito em livro.

Poeta adolescente e contraditório foi aluno brilhante e leitor precoce. Ligou-se aos grupos boêmios e políticos da Faculdade, interagindo a sociedade “Epicuréia” e “A Bucha”. Nele se misturam ternura e perversidade, desejo de afirmação e submissão, rebeldia dos sentidos, que o leva, por um lado, à extrema idealização, e, por outro lado, à lubricidade. Sofre o fascínio do conhecimento e a obsessão de algo maior, a própria existência que se traduz num cansaço precoce de viver, num desejo anormal em busca do fim (mal do século), como apresenta em seu famoso poema”Lembrança de Morrer”. Lança-se à nostalgia, ao vício, revolta que aparece em “Spleen e Charutos”. Influenciado por Byron e Musset. Incursiona também no campo da ficção e, com tom sarcástico e cômico-satânico, escreve Noite na Taverna e Macário. A noite ocupa um lugar principal, tanto na ficção como na poesia. É freqüente associar noite com vento, lua, mar, donzelas adormecidas em praias tenebrosas, sendo que o sentimento noturno coincide com uma visão lutuosa. Sua poesia, não raro, apresenta um tom sarcástico e irônico. É afeito à galhofa e a brincadeira, traços mais originais em sua obra. Também introduz elementos do cotidiano, como cama, quarto, charutos, “cognac”, etc.

Idéias íntimas, Álvares de Azevedo


FragmentoLa chaise où je m’assieds, la natte où je me couche,La table ou je t’écris ....................................................................................................................................Mes gros souliers ferrés, mon baton, mon chapeau,Mês libres pêle-mêle entassés sur leur planche....................................................................................De cet espace étroit sont tout l’ameublement.LAMARTINE, Jocelyn

I
Ossian — o bardo é triste como a sombra Que seus cantos povoa. O Lamartine É monótono e belo como a noite, Como a lua no mar e o som das ondas...Mas pranteia uma eterna monodia,Tem na lira do gênio uma só corda, — Fibra de amor e Deus que um sopro agita!Se desmaia de amor... a Deus se volta,Se pranteia por Deus... de amor suspira.Basta de Shakespeare. Vem tu agora,Fantástico alemão, poeta ardenteQue ilumina o clarão das gotas pálidasDo nobre Johannisberg! Nos teus romancesMeu coração deleita-se... Contudo,Parece-me que vou perdendo o gosto,Vou ficando blasé: passeio os diasPelo meu corredor, sem companheiro,Sem ler, nem poetar... Vivo fumando.Minha casa não tem menores névoasQue as deste céu d’inverno... SolitárioPasso as noites aqui e os dias longos...Dei-me agora ao charuto em corpo e alma:Debalde ali de um canto um beijo implora,Como a beleza que o Sultão despreza,Meu cachimbo alemão abandonado!Não passeio a cavalo e não namoro,Odeio o lasquenet... Palavra d’honra!Se assim me continuam por dois mesesOs diabos azuis nos frouxos membros,Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II

Enchi o meu salão de mil figuras.Aqui voa um cavalo no galope,Um roxo dominó as costas voltaA um cavaleiro de alemães bigodes,Um preto beberrão sobre uma pipa,Aos grossos beiços a garrafa aperta...Ao longo das paredes se derramamExtintas inscrições de versos mortos,E mortos ao nascer!... Ali na alcovaEm águas negras se levanta a ilhaRomântica, sombria, à flor das ondasDe um rio que se perde na floresta...— Um sonho de mancebo e de poeta,El-Dorado de amor que a mente cria,Como um Éden de noites deleitosas...Era ali que eu podia no silêncioJunto de um anjo... Além o romantismo!Borra adiante folgaz caricaturaCom tinta de escrever e pó vermelhoA gorda face, o volumoso abdômen,E a grossa penca do nariz purpúreoDo alegre vendilhão entre botelhas,Metido num tonel... Na minha cômodaMeio encetado o copo, inda verberaAs águas d’oiro do Cognac ardente:Negreja ao pé narcótica botelhaQue da essência de flores de laranjaGuarda o licor que nectariza os nervos.Ali mistura-se o charuto havanoAo mesquinho cigarro e ao meu cachimbo...A mesa escura cambaleia ao pesoDo titâneo Digesto, e ao lado deleChilde-Harold entreaberto... ou LamartineMostra que o romantismo se descuidaE que a poesia sobrenada sempreAo pesadelo clássico do estudo.

III
Reina a desordem pela sala antiga, Desce a teia de aranha as bambinelasÀ estante pulvurenta. A roupa, os livros Sobre as poucas cadeiras se confundem.Marca a folha do Faust um colarinhoE Alfredo de Musset encobre, às vezesDe Guerreiro, ou Valasco, um texto obscuro.Como outrora do mundo os elementos Pela treva jogando cambalhotas,Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat!

IV
Na minha sala três retratos pendem:Ali Victor Hugo. — Na larga fronteErguidos luzem os cabelos louros,Como c’roa soberba. Homem sublime!O poeta de Deus e amores puros!Que sonhou Triboulet, Marion DelormeE Esmeralda — a Cigana... E diz a crônicaQue foi aos tribunais parar um diaPor amar as mulheres dos amigosE adúlteros fazer romances vivos.
V
Aquele é Lamennais — o bardo santo,Cabeça de profeta, ungido crente,Alma de fogo na mundana argilaQue as harpas de Sion vibrou na sombra,Pela noite do século chamandoA Deus e à liberdade as loucas turbas.Por ele a George Sand morreu de amores,E dizem que... Defronte, aquele moçoPálido, pensativo, a fronte erguida,Olhar de Bonaparte em face austríaca,Foi do homem secular as esperanças:No berço imperial um céu de agostoNos cantos de triunfo despertou-o...As águias de Wagram e de MarengoAbriam flamejando as longas asasImpregnadas do fumo dos combatesNa púrpura dos Césares, guardando-o...E o gênio do futuro pareciaPredestiná-lo à glória. A história dele?...Resta um crânio nas urnas do estrangeiro...Um loureiro sem flores nem sementes...E um passado de lágrimas... A terraTremeu ao sepultar-se o Rei de RomaPode o mundo chorar sua agoniaE os louros de seu pai na fronte deleInfecundos depor... Estrela morta,Só pode o menestrel sagrar-te prantos!

VI
Junto a meu leito, com as mãos unidas,Olhos fitos no céu, cabelos soltos,Pálida sombra de mulher formosaEntre nuvens azuis pranteia orando.É um retrato talvez. Naquele seioPorventura sonhei douradas noites,Talvez sonhando desatei sorrindoAlguma vez nos ombros perfumadosEsses cabelos negros e em delíquioNos lábios dela suspirei tremendo,Foi-se a minha visão... E resta agoraAquele vaga sombra na parede— Fantasma de carvão e pó cerúleo! —Tão vaga, tão extinta e fumacentaComo de um sonho o recordar incerto.

VII
Em frente do meu leito, em negro quadro,A minha amante dorme. É uma estampaDe bela adormecida. A rósea faceParece em visos de um amor lascivoDe fogos vagabundos acender-se...E como a nívea mão recata o seio...Oh! quanta s vezes, ideal mimoso,Não encheste minh’alma de ventura,Quando louco, sedento e arquejanteMeus tristes lábios imprimi ardentesNo poento vidro que te guarda o sono!

VIII
O pobre leito meu, desfeito ainda,A febre aponta da noturna insônia.Aqui lânguido à noite debati-meEm vãos delírios anelando um beijo...E a donzela ideal nos róseos lábios,No doce berço do moreno seioMinha vida embalou estremecendo...Foram sonhos contudo! A minha vidaSe esgota em ilusões. E quando a fadaQue diviniza meu pensar ardenteUm instante em seus braços me descansaE roça a medo em meus ardentes lábiosUm beijo que de amor me turva os olhos...Me ateia o sangue, me enlanguece a fronte...Um espírito negro me desperta,O encanto do meu sonho se evapora...E das nuvens de nácar da venturaRolo tremendo à solidão da vida!IX
Oh! ter vinte anos sem gozar de leveA ventura de uma alma de donzela!E sem na vida ter sentido nuncaNa suave atração de um róseo corpoMeus olhos turvos se fechar de gozo!Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhasPassam tantas visões sobre meu peito!Palor de febre meu semblante cobre,Bate meu coração com tanto fogo!Um doce nome os lábios meus suspiram,Um nome de mulher... e vejo lânguidaNo véu suave de amorosas sombrasSeminua, abatida, a mão no seio,Perfumada visão romper a nuvem,Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebrasO alento fresco e leve como a vidaPassar delicioso... Que delírios!Acordo palpitante... inda a procuro:Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimasBanham meus olhos, e suspiro e gemo...Imploro uma ilusão... tudo é silêncio!Só o leito deserto, a sala muda!Amorosa visão, mulher dos sonhos,Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!Nunca virás iluminar meu peitoCom um raio de luz desses teus olhos?

X
Meu pobre leito! eu amo-te contudo!Aqui levei sonhando noites belas;As longas horas olvidei libandoArdentes gotas de licor dourado,Esqueci-as no fumo, na leituraDas páginas lascivas do romance...Meu leito juvenil, da minha vidaÉs a página d’oiro. Em teu asiloEu sonho-me poeta e sou ditoso...E a mente errante devaneia em mundosQue esmalta a fantasia! Oh! quantas vezesDo levante no sol entre odaliscasMomentos não passei que valem vidas!Quanta música ouvi que me encantava!Quantas virgens amei! que Margaridas,Que Elviras saudosas e Clarissas,Mais trêmulo que Faust, eu não beijava...Mais feliz que Don Juan e LovelaceNão apertei ao peito desmaiando!Ó meus sonhos de amor e mocidade,Porque ser tão formosos, se devíeisMe abandonar tão cedo... e eu acordavaArquejando a beijar meu travesseiro?

XI
Junto do leito meus poetas dormem— O Dante, a Bíblia, Shakespeare e ByronNa mesa confundidos. Junto delesMeu velho candeeiro se espreguiçaE parece pedir a formatura.Ó meu amigo, ó velador noturno,Tu não me abandonaste nas vigílias,Quer eu perdesse a noite sobre os livros,Quer, sentado no leito, pensativoRelesse as minhas cartas de namoro...Quero-te muito bem, ó meu comparsaNas doudas cenas de meu drama obscuro!E num dia de spleen, vindo a pachorra,Hei de evocar-te dum poema heróicoNa rima de Camões e de Ariosto,Como padrão às lâmpadas futuras!

XII
Aqui sobre esta mesa junto ao leitoEm caixa negra dois retratos guardo:Não os profanem indiscretas vistas.Eu beijo-os cada noite: neste exílioVenero-os juntos e os prefiro unidos...— Meu pai e minha mãe! Se acaso um dia,Na minha solidão me acharem morto,Não os abra ninguém. Sobre meu peitoLancem-os em meu túmulo. Mais doceSerá certo o dormir da noite negraTendo no peito essas imagens puras.

XIII
Havia uma outra imagem que eu sonhavaNo meu peito, na vida e no sepulcro,Mas ela não o quis... rompeu a tela,Onde eu pintara meus dourados sonhos.Se posso no viver sonhar com ela,Essa trança beijar de seus cabelosE essas violetas inodoras, murchas,Nos lábios frios comprimir chorando,Não poderei na sepultura, ao menos,Sua imagem divina ter no peito.XIV
Parece que chorei... Sinto na faceUma perdida lágrima rolando...Satã leve a tristeza! Olá, meu pagem,Derrama no meu copo as gotas últimasDessa garrafa negra...Eia! bebamos!És o sangue do gênio, o puro néctarQue as almas de poeta diviniza,O condão que abre o mundo das magias!Vem, fogoso Cognac! É só contigoQue sinto-me viver. Inda palpito,Quando os eflúvios dessas gotas áureasFiltram no sangue meu correndo a vida,Vibram-me os nervos e as artérias queimam,Os meus olhos ardentes se escurecemE no cérebro passam delirososAssomos de poesia... Dentre a sombraVejo num leito d’ouro a imagem delaPalpitante, que dorme e que suspira,Que seus braços me estende...Eu me esquecia: Faz-se noite; traz fogo e dois charutosE na mesa do estudo acende a lâmpada...

A dimensão sociocultural da literatura



De um ponto de vista histórico, a literatura pode ser entendida como instrumento de intervenção social. Deslocando-nos assim para o centro de uma questão que é tão remota quanto as mais antigas reflexões acerca da condição social da literatura, Platão, no quadro da busca da verdade, concebia a atividade poética como algo que só se legitimava em função do serviço que o poeta pudesse prestar à comunidade.

Em épocas posteriores, a defesa de uma criação literária vinculada à sociedade, assume dimensões mais truncadas, do ponto de vista ideológico: durante o Realismo, colocando-se numa posição antiidealista, o escritor faz da literatura um instrumento de análise de tipos e situações carenciados de reforma; sob o signo do Positivismo e do Determinismo, o Naturalismo acentua essa análise, com propósitos explicativos de inspiração científica, propósitos que em última instância apontavam no sentido da modificação qualitativa da natureza através da literatura; e em épocas mais próximas de nós – particularmente entre os anos 30 e os anos 50 do século XX, a estética e a cultura marxistas associam as práticas literárias a intuitos de revolução social e econômica, fazendo então, da literatura um instrumento de compromisso social do escritor.

Exemplo dessa postura, no Brasil, temos o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que representa a miséria social e humana de uma família nordestina que foge à seca; assim sendo, as pungentes situações descritas e as personagens degradadas que as vivem, são facilmente entendidas como denúncia, através da literatura e de forma ideologicamente ativa, de condições de vida deprimentes.

Um dos testemunhos mais veementes em favor de uma criação literária comprometida com a sociedade encontra-se no famoso texto de Jean-Paul Sartre, “Qu’est-ce que la littérature?” Escrito e publicado numa época de vivo debate ideológico e de acentuada presença cultural marxista (a época do pós-guerra, da vigência do stalinismo e do advento da IV república francesa), o livro de Sartre defende teses e propõe comportamentos que fortemente motivaram práticas literárias empenhadas: trata-se, de um modo geral, de entender o escritos como intelectual militante, detentor de uma palavra – que é a palavra literária, por assim dizer transparente, no sentido em que torna-se capaz de traduzir e fielmente representar situações sociais que importa denunciar; por isso, Sartre afirma que “a função do escritor é proceder de modo que ninguém possa ignorar o mundo nem alhear-se dele”.

Afirmações desse tipo implica conseqüências importantes pelo menos em dois níveis: do ponto de vista ideológico, o escritor poderá assumir-se como culturalmente responsável, abarcando nessa responsabilidade o dever de intervir na sociedade em que está inserido e procurando envolver o leitor nessa intervenção; levando-se esta orientação ao extremo, poderia chegar-se ao limite de apenas se reconhecer legitimidade a uma literatura socialmente ativa, assim se tendendo a constituir um campo literário balizado por marcas estritamente socioculturais.

A doutrina sartreana de um ponto de vista funcional (que tem que ver com opções de linguagem e mais propriamente de modos e gêneros literários), o escritor comprometido adotará um discurso em prosa, como o mais adequado a uma ação que se exerce pelo “desvelamento”. Por isso, a concepção sartreana do compromisso literário estimula uma prática literária do tipo realista, num sentido genérico, que é aquela que se entende ser possível fazer da literatura um eficaz instrumento de representação do real.
Neste diapasão, qualquer idéia sobre a dimensão sociocultural da literatura deverá atentar em diversos aspectos da situação do escritor, no que toca à responsabilidade cultural que lhe cabe, aos direitos de que se reclama e aos deveres que lhe podem ser imputados, bem como a um conjunto de mecanismos (de ordem econômica, ideológica, psicológica, etc) que o configuram como entidade socialmente relevante.

Porém, no plano concreto, histórico e social da sua existência que o escritor chega a desfrutar de um certo ascendente, na comunidade em que se que encontra. Esse ascendente é tanto maior quanto mais influentes são os diversos mecanismos de promoção do escritor, o que lhe permite muitas vezes intervir em esferas da vida pública.

Convém notar, no entanto, que esse seja um fenômeno relativamente recente; ele não deve levar-nos a esquecer que, com freqüência, o escritor enfrentou e enfrenta obstáculos por vezes consideráveis, em boa parte capazes de cercear a sua capacidade expressiva, limitada por censuras de ordem moral e ideológica. Grandes escritores, em todas as épocas, insurgiram-se contra essas restrições: “Impedir adultos de pensar de uma forma madura acerca da verdade, prejudica incomparavelmente mais a sociedade do que eventualmente permitir a uma criança que pense acerca disso precocemente”, escreveu Aldous Huxley e John Steinbeck: “Um ditador pode matar e mutilar pessoas pode mergulhar em qualquer espécie de tirania e ser apenas odiado, mas quando se queimam livros, acontece uma extrema tirania”.

A Crítica literária na formação do professor hermenêutico-reflexivo


Parafraseando Barthes (1970), “é escritor aquele que quer ser”. Um professor ao desejar sê-lo, de letras, deve transformar o seu projeto em vocação, o trabalho da linguagem em dom de escrever, e a técnica em arte: assim nasceu o mito do “bem-escrever”: o professor de letras passa a ser um sacerdote assalariado, guardião meio respeitável do santuário da palavra.

O professor, como escrevente, diria ainda Barthes, uma pessoa “transitiva” coloca um fim (testemunhar, explicar, ensinar) para o qual a palavra é apenas um meio.

A diferenciação entre escritor e escrevente: aquele tem algo de sacerdote, o escrevente de clérigo; a palavra de um ato intransitivo (portanto, de certo modo, um gesto), a palavra do outro uma atividade.

Um dos aspectos mais importantes para a formação do professor hermenêutico – reflexivo seria saber distinguir as diferenças entre teoria, crítica e história literária. Há, primeiro, a distinção entre a literatura vista como ordem simultânea e a literatura vista primordialmente como uma série de obras dispostas em ordem cronológica e como partes integrais do processo histórico. Há, então a distinção adicional entre o estudo dos princípios e critérios da literatura e o estudo das obras de arte literária concretas, quer as estudemos isoladamente ou em uma série cronológica. Ela parece ressaltar mais essas distinções ao descrever-se “teoria literária” o estudo dos princípios da literatura, das suas categorias, critérios, etc, e diferenciar os estudo de obras de arte concretas na “crítica literária” (de abordagem principalmente estática) ou “história literária”. Naturalmente, o termo “crítica literária” muitas vezes tem sido usado de maneira a incluir toda teoria literária. O termo “teoria da literatura” poderia incluir também as necessárias “teoria da crítica literária” e “teoria da história literária”.

O professor deve ter em mente que essas distinções são razoavelmente óbvias e têm aceitação bem ampla. Menos comum, porém, seria a percepção de que os métodos assim designados não podem ser usados isoladamente, eles estão de tal maneira entrelaçados tornando-se inconcebíveis a teoria literária sem a crítica ou a história, a crítica sem a teoria e a história, ou a história sem a teoria e a crítica. Obviamente, a teoria literária seria impossível, exceto com base em um estudo de obras literárias concretas. Não se pode chegar a critérios, categorias e esquemas no vácuo. Inversamente, porém, nenhuma crítica ou história é possível sem algum conjunto de questões, algum sistema de conceitos, alguns pontos de referência, algumas generalizações. Naturalmente, não se trata aqui de nenhum dilema insuperável: toda vez que se lê tem-se algumas idéias preconcebidas e sempre possibilitando mudar e modificar essas percepções depois de mais experiência com obras literárias. O processo é dialético: uma interpenetração mútua de teoria e prática. Houve tentativas de isolar a história literária da teoria e da crítica. Essa distinção é inteiramente insustentável como afirma a autora Perrone-Moisés:

Simplesmente não há dados na história literária que sejam “fatos” completamente naturais. Há julgamentos de valor implícitos na própria escolha de materiais: na distinção preliminar entre livros e literatura, na mera alocação de espaço a este ou àquele autor. Mesmo a verificação de uma data ou título pressupõe algum tipo de julgamento, em que seleciona este livro ou acontecimento específico dentre os milhões de outros livros e acontecimentos.
Geralmente, porém, a argumentação a favor de isolar a história literária da crítica literária assenta-se em fundamentos diferentes. Não se nega que sejam necessários atos de julgamentos, mas argumenta-se que a história literária tem os seus próprios padrões e critérios peculiares, isto é, os de outras épocas. Devemos, argumentam esses reconstrucionistas literários, entrar no espírito e nas posturas dos períodos passados e aceitar os seus padrões, excluindo deliberadamente a intrusão dos nossos preconceitos.

No estudo da literatura, essa tentativa de reconstrução histórica levou à grande ênfase na intenção do autor, supondo-se, poder ser estudada na história da crítica e do gosto literário. Reflete-se, geralmente, a possibilidade de poder verificar essa intenção e se poder perceber-se o autor a cumpriu e também se pode desembaraçar do problema da crítica. Ao autor serviu um propósito contemporâneo e não há nenhuma necessidade ou mesmo possibilidade de crítica adicional ao seu trabalho. Há, então, duas centenas de concepções independentes, diversas e mutuamente exclusivas de literatura, cada uma delas “correta” de alguma forma. O ideal da poesia está partido em muitos pedaços e nada resta dele: o resultado deve ser uma anarquia geral ou, antes, um nivelamento de todos os valores. A história da literatura está reduzida a uma série de fragmentos distintos e, portanto, finalmente, incompreensíveis.
Toda a idéia de que a “intenção” do autor seja o tema adequado da história literária parece, contudo, bastante errada. O significado de uma obra de arte jamais se esgota na sua intenção nem equivale a ela. Como sistema de valores, conduz a uma vida independente. O significado total de uma obra de arte não pode ser definido meramente em função do seu significado para o seu autor e os seus contemporâneos.

O professor hermenêutico-reflexivo deve tratar a obra de arte como um processo de adição; a história da crítica pelos seus muitos leitores em muitas épocas. Simplesmente não é possível deixarmos de ser críticos em pleno século XXI enquanto nos ocupamos de um julgamento do passado: de jeito nenhum podemos esquecer as associações da nossa linguagem, das nossas posturas adquiridas, do impacto e da importância dos últimos séculos.

Sendo “professor narrativa”, estudioso da história literária e crítico de um novo tempo, não se contentará com julgar uma obra de arte meramente do ponto de vista do seu próprio tempo – um privilégio do crítico praticante, que reavaliará o passado em função das necessidades de um estilo ou movimento presente.

A única objeção possível contra o estudo de autores vivos seria o argumento de que o estudante perde a perspectiva da obra completa, da explicação que trabalhos posteriores podem dar às implicações do primeiro. Mas essa desvantagem, válida apenas para autores em desenvolvimento, parece pequena quando comparada com as vantagens de conhecer o ambiente e o tempo e com as oportunidades de conhecimento e indagação pessoal ou, pelo menos, de correspondência. Se vale a pena estudar muitos autores de segunda ou mesmo de décima categoria do passado, também vale estudar um autor de primeira ou mesmo de segunda categoria do nosso tempo. Geralmente por falta de percepção ou por timidez que os acadêmicos relutam em julgar por si mesmos. Preferem esperar o “julgamento das eras”, não percebendo que esse nada mais é, que o veredicto de outros críticos e leitores, inclusive outros professores. Toda a suposta imunidade do historiador literário à crítica e à teoria se tornaria inteiramente falsa e por uma razão simples: toda obra de arte existe agora, diretamente acessível à observação e traz solução de certos problemas artísticos, quer tenha sido composta ontem, quer tenha sido composta há mil anos. Ela não pode ser analisada, caracterizada ou avaliada sem o recurso constante a princípios críticos. Segundo Norman Ferster (1929), “O historiador literário deve ser um crítico até mesmo para ser um historiador”.
O professor, “homem-narrativa”, deve entender que a história literária também altamente importante para a crítica literária, tão logo esta ultrapassa o pronunciamento mais subjetivo do “gosto” e “não gosto”. Um crítico que se contentasse em ignorar todas as relações históricas iria se perder constantemente nos seus julgamentos. Não poderia saber pela sua ignorância das condições históricas e erraria constantemente na compreensão de obras de arte específicas.

De acordo com Barthes (1970), por um movimento complementar, o crítico se torna por sua vez escritor. E querer ser escritor não é uma pretensão de estatuto, mas uma intenção de ser. Não importa achar mais glorioso ser romancista, poeta, ensaísta ou cronista? O escritor não pode ser definido em termos de papel ou de valor, mas somente por uma certa consciência da palavra.

É escritor aquele para quem a linguagem constitui problema, que experimenta sua profundidade, não sua instrumentabilidade ou sua beleza. Nasceram então livros críticos, oferecendo-se à leitura segundo as mesmas vias que a obra propriamente literária, se bem que seus autores não sejam, por estatuto, mais do que críticos e não escritores. Se a crítica nova tem alguma realidade, ela consiste nisto: não na unidade de seus métodos, ainda menos no esnobismo que, segundo se diz comodamente, a sustenta, mas na solidão do ato crítico, doravante afirmado, longe dos álibis da ciência ou das instituições, como um ato de plena escritura. Outrora separados pelo mito gasto do “soberbo criador e do humilde servidor, ambos necessários, cada um no seu lugar etc”, o escritor e o crítico se reúnem na mesma condição difícil, em face do mesmo objeto: a linguagem (...).
Recentemente, e muitas vezes, censurou-se a nova crítica dizendo que ela contraria a tarefa do educador, que é essencialmente, ao que parece, ensinar a ler. A velha retórica tinha por ambição ensinar a escrever: ela dava regras de criação (de imitação), não de recepção. Podemos, com efeito, perguntar-nos se não é diminuir a leitura, isolar assim suas regras. Bem ler é virtualmente bem escrever, isto é, escrever segundo o símbolo. (BARTHES, 1970, pp.213,214).

Henry James expressou as seguintes exclamações em seu artigo “A Arte da Ficção” de 1884: “Que é uma personagem senão um determinante da ação? Que é a ação senão a ilustração da personagem? Que é um quadro ou um romance que não seja uma descrição de caracteres? Que outra coisa neles procuramos, neles encontramos?”

Segundo Todorov, duas idéias vêm à luz através delas. A primeira concerne à ligação indefectível dos diferentes constituintes da narrativa: as personagens e a ação. Não há personagens fora da ação, nem ação independentemente de personagens. Mas, sub-repticiamente, uma segunda idéia aparece nas últimas linhas: se as duas estão indissoluvelmente ligadas, uma, entretanto mais importante que a outra: as personagens. Isto diz respeito aos caracteres, à psicologia. Toda narrativa torna-se “uma descrição de caracteres”

Raro observar-se um caso tão puro de egocentrismo que se toma por universalismo, diz Todorov. Se o ideal teórico de James era uma narrativa onde tudo está submetido à psicologia das personagens, difícil ignorar a existência de toda uma tendência da literatura na qual as ações não existem para servir de “ilustração” à personagem, mas onde, pelo contrário, as personagens estão submetidas à ação; e onde, por outro lado, a palavra “personagem” significa coisa bem diversa de uma coerência psicológica ou de uma descrição de caráter. Essa tendência da qual a “Odisséia” e o “Decameron”, “As Mil e Uma Noites” e o “Manuscrito Encontrado em Saragossa” são algumas das manifestações mais célebres, pode ser considerada como um caso-limite de a-psicologismo literário.

Ao se falar de livros como As Mil e Uma Noite, afirma Todorov, devemos dizer que a análise interna dos caracteres aí está ausente, que não há descrição dos estados psicológicos. Para melhor caracterizar esse fenômeno de a-psicologismo, seria preciso partir de uma certa imagem do andamento da narrativa, quando esta obedece a uma estrutura causal. Poder-se-ia então, representar qualquer momento da narrativa sob a forma de uma oração simples, que entra em relação de consecução (notada por um +) ou de conseqüência (notada por um =) com as orações precedentes e seguintes.

Para Todorov, a primeira oposição entre a narrativa preconizada por James e a das Mil e Uma Noites pode ser assim ilustrada: se existe uma oração “X vê Y”, o importante para James, é X, para Sherazade, Y. A narrativa psicológica considera cada ação como uma via que abre acesso à personalidade daquele que age, como uma expressão ou senão como um sintoma. A ação tampouco se considera por si mesma, ela é transitiva com relação a seu sujeito. A narrativa a-psicologia, pelo contrário, caracteriza-se por suas ações intransitivas: a ação importa por ela mesma e nunca como indício de tal traço de caráter. As Mil e uma Noites pertencem, pode-se dizer, a uma literatura predicativa: a ênfase recairá sempre sobre o predicado e não sobre o sujeito da oração. Em As mil e uma Noites, o exemplo mais conhecido desse obscurecimento do sujeito gramatical é a história Sendbad, o marujo. Até mesmo Ulisses sai de suas aventuras mais determinado do que ele: sabe-se que ele é esperto, prudente etc. Nada disso pode ser dito de Sindbad: sua narrativa, embora conduzida na primeira pessoa, é impessoal; dever-se-ia anotá-la como “X vê Y” mas como “Vê-se Y”. Somente a mais fria das narrativas de viagem pode rivalizar, em impessoalidade, com as histórias de Sindbad; mas não qualquer narrativa de viagem: pode-se pensar na “Viagem Sentimental”, de Sterne.

Voltamos a Roland Barthes (1970), em capítulo de Crítica e Verdade, “A Ciência da Literatura”:
Segundo este autor, possuímos uma história da literatura, mas não uma ciência da literatura, porque, sem dúvida, ainda não conseguimos reconhecer plenamente a natureza do “objeto literário”, que é um objeto escrito. A partir do momento, conforme afirma, em que se admitir que a obra foi feita como escritura (e daí tirar as conseqüências), uma certa ciência da literatura torna-se possível. Seu objeto (se ela existir um dia) não poderá ser o de impor à obra um sentido, em nome do qual ela se daria o direito de rejeitar os outros sentidos. Não poderá ser uma ciência dos conteúdos aos quais a mais estrita ciência histórica terá chance, mas uma ciência das condições do conteúdo, isto é, das formas: o que lhe interessará serão as variações de sentidos engendradas e, por assim dizer, engendráveis pelas obras: ela não interpretará os símbolos, mas somente sua polivalência; em uma só palavra, seu objetivo não será mais os sentidos plenos da obra, mas pelo contrário, o sentido vazio que os suporta a todos.

Seu modelo será evidentemente lingüístico. Colocado diante da impossibilidade de dominar todas as frases de uma língua, o lingüista aceita estabelecer um modelo hipotético de descrição, a partir do qual ele possa explicar como são construídas as frases infinitas de uma língua. Quaisquer que sejam as correções às quais sejamos levados, não há nenhuma razão para que não se tente aplicar tal método às obras da literatura: essas obras são elas mesmas semelhantes a imensas “frases” derivadas da língua geral dos símbolos, através de um certo número de transformações reguladas, ou, de um modo mais geral, através de uma certa lógica significante que é preciso descrever. Por outras palavras, a lingüística pode dar à literatura esse modelo gerador que é o princípio de toda ciência, já que se trata sempre de dispor de certas regras para explicar certos resultados. A ciência da literatura terá pois por objeto, não por que tal sentido deva ser aceito, nem mesmo por que o foi, mas por que ele é aceitável, de modo algum em função das regras filológicas da letra, mas em função das regras lingüísticas do símbolo. (BARTHES, 1970, p. 217)

No que concerne à faculdade de linguagem postulada por Humboldt e Chomsky, existe talvez no homem uma faculdade de literatura, uma energia da palavra, que nada tem a ver com o “gênio”, pois ela também não surge de inspiração ou de vontades pessoais, mas de regras acumuladas bem além do autor. Não são imagens, idéias ou versos que a voz mítica da Musa sopra ao escritor, é a grande lógica dos símbolos, as grandes formas vazias que permitem falar e operar.

Será necessário aceitar a redestruição dos objetos da ciência literária. O autor, a obra, são apenas os pontos de partida de uma análise cujo horizonte é uma linguagem: não pode existir uma ciência de Dante, de Shakespeare ou de Racine, mas somente uma ciência do discurso. Essa ciência terá dois grandes territórios, segundo os signos inferiores à frase, tais como as antigas figuras, os fenômenos de conotação, “as anomalias semânticas etc, em suma todos os traços da linguagem literária em seu conjunto; o segundo compreenderá os signos superiores à frase, as partes do discurso de onde se pode induzir uma estrutura da narrativa, da mensagem poética, do texto discursivo, etc”. (BARTHES, 1970, p. 219).

Segundo R. Picard (1970), o critério não pode dizer “qualquer coisa”; no entanto, o que controla suas palavras não é o medo moral de “delirar”. Se o crítico deve dizer alguma coisa (e não qualquer coisa), ele concede à palavra (à do autor e à sua) uma função significante e, por conseguinte a anamorfose na qual ele imprime a obra (e à qual ninguém no mundo tem o poder de se subtrair) sendo guiada pelos constrangimentos formais dos sentidos: a sanção do crítico não é o sentido da obra, e sim, o sentido daquilo que ele diz dela.

O primeiro constrangimento é considerar que na obra tudo é significante: uma gramática não é bem descrita se todas as frases não puderem ser explicadas por ela; um sistema de sentidos é insatisfatório se todas as falas não puderem aí se encaixar num lugar inteligível: que um só traço seja demais e a descrição não é boa. Essa regra de exaustividade, que os lingüistas conhecem bem, é de um alcance bem diverso do que a espécie de controle estatístico que, ao que parece, querem transformar numa obrigação do crítico. (PICARD, 1970, p. 222)

O Romantismo Brasileiro



“Muitas Lâmpadas, pouco brilho”...

“Na história espiritual das nações cultas – escrevia em 1876 Silvio Romero – cada fenômeno de hoje é um último elo de uma cadeia. Na história intelectual do Brasil, mercado de consumo da produção européia, a leitura de um escritor estrangeiro, a predileção por um livro de fora, vem decidir da natureza das opiniões entre nós. As idéias no Brasil não descendem uma das outras, não as liga um liame histórico. As idéias são consideradas como absolutas e os seus valores se colocam, todos, num mesmo plano. São folhas perdidas no torvelinho da nossa indiferença; a pouca ou nenhuma influência que hão exercido sobre o pensamento nacional explica essa anomalia”.

Cassiano Nunes, ensaísta literário, em estudo importante sobre o romance brasileiro, diria:

“Verdade, porém, é que à liberdade política não se seguiu a nossa liberdade de pensamento; intelectualmente, continuamos tão coloniais como dantes, e coloniais não só de Portugal, mas da França”. “O Romantismo no romance brasileiro sofreu de tal forma a influência estrangeiro que nunca chegou a marcar um período notável na história da nossa literatura. Falta neles a evidencia do homem e do meio que o circunscreve; são todos de uma bem pobre ficção e um lirismo sem jeito. Salvo num ou noutro autor em que a força da imaginação consegue dominar a ideologia sentimental (ideologia de Joaquim Manuel de Macedo), a ilusão da idéia pelo sentimento”. (NUNES, 1926)

Mas isso não aconteceu apenas na ficção, foi até mais acentuado na poesia, e em particular naqueles autores que uma repartição cronológica sem nenhum sentido de conteúdo agrupou na “primeira geração romântica”.

O manifesto romântico chegou-nos de Paris, que no-lo remeteu como um figurino ou frasco de perfume. Enviou-nos de lá esse produto de tantas conseqüências futuras um diplomata que se fincou em nossa literatura com um mau livro, mas com a etiqueta de predecessor. Esqueceu-se o livro, mas o nome do autor ficou. O grito de renovação, de morte do classicismo, o elogio aos desvarios sentimentais, foram dados, assim, em nosso país, por um senhor fidalgo austero e medíocre. Domingos Gonçalves de Magalhães – era esse o seu nome – escreveu muitas poesias religiosas que não levam ninguém à igreja. Manuel de Araújo Pôrto Alegre, seu amigo e continuador, não o sobrepujou poeticamente. Embora defendessem o romantismo, Gonçalves de Magalhães e Araújo Pôrto Alegre não passaram de clássicos fatigantes. (NUNES, 1926, s/p)

Cabe aqui a responsabilidade de inserir a visão de José Veríssimo, mais ameno em suas críticas:

Somente com os primeiros românticos, entre 1836 e 1846, a poesia brasileira, retomando a trilha logo apagada da plêiade mineira, entre já a cantar com inspiração feita dum consciente espírito nacional. Desde então somente é possível descobrir traços diferenciais nas letras brasileiras. (VERÍSSIMO, 1936)

O romantismo se configura em símbolo e forma de patriotismo.

Além de patriótica, ostensivamente patriótica, a primeira geração romântica e religiosa e moralizante. Estas feições fazem que seja triste, como, aliás, será a segunda. Somente a tristeza desta é a do ceticismo, do desalento, do fastio da vida, segundo Byron, Musset, Espronceda e quejandos mestres seus.a melancolia de Magalhães e seus parceiros é a tristeza de que penetrou a alma humana o sombrio catolicismo medieval. (VERÍSSIMO, 1936)

Conforme leciona Sodré (1969), era a tristeza dos exilados, o ceticismo dos que não acreditavam em seu país, a nostalgia de outras terras e de outros motivos – Veríssimo procura caracterizar o romantismo, aliás, como reação contra o passado, isto é, contra a dependência colonial:

Qualquer que hajam sido os seus motivos e característicos, sejam quais forem as definições que comporte, o romantismo foi sobretudo um movimento de liberdade espiritual, primeiro, se lhe remontarmos às ultimas origens, filosófica, literária e artística depois, e ainda social e política. Em arte e literatura, seu objetivo foi fazer algo diferente do passado e do existente, e até contra ambos. Excedeu o seu propósito, e em todos os ramos de atividade mental, até nas ciências, foi uma reação contra o espírito clássico, que, embora desnaturado, ainda dominava em todos. (VERÍSSIMO, 1936)

Visto o romantismo no quadro da realidade, entretanto, o que surge, à simples observação, como novo, esboçando de uma maneira clara, indiscutível, a participação do público. “Claro que do público possível”, diz Sodré, daquelas camadas da população urbana que estavam em condições de conceder atenção às letras, e que se comportavam, nisso como em tudo, de acordo com as suas origens e condições de classe, camadas que englobavam o estudante, a mulher, o pequeno funcionalismo, parte do grupo comercial. Era uma sociedade, a do Império, que concedia às manifestações literárias sobras de atenção, sobras de apreço, aquela atenção e aquele apreço próprios do lazer e do repouso, ligados estreitamente ao conceito de arte como divertimento, como evasão da rotina, como busca do sonho, como refúgio, como preenchimento do ócio.

A participação do público vai começar a se definir, entretanto, com o aparecimento da ficção romântica. “A leitura – escreveu Lavelle – nos dá uma familiaridade e até uma fraternidade com pensamentos que diferem do nosso e, amiúde, o ultrapassam: a leitura torna-se uma espécie de sociedade que formamos com outros homens por intermédio de um só. E Olívio Montenegro, estudando o romance brasileiro, confirma esse laço de participação que encontra as mais amplas possibilidades condicionadas ao meio e ao tempo, no campo da ficção.

De todas as formas de arte ainda é a literatura a de significação mais universal, e das formas de literatura ainda é o romance a que se prefere mais; a que atrai uma massa ilimitada de leitores. O que, aliás, bem se compreende: o romance é a forma de arte que o leitor participa mais intimamente, já pela sua liberdade de rever-se nas personagens, já pela liberdade ainda mais deliciosamente pura de julgá-los. (MONTENEGRO, 1949, p. 24)

Aparece, na fase em que existe um público, ainda que reduzido, para assegurar-lhe vida. Vem atender uma necessidade, uma exigência, uma solicitação natural e espontânea do meio, quando o Brasil atinge a uma etapa de desenvolvimento em que a atividade literária se torna possível quando a vida urbana estabeleceu as condições mínimas para a sua existência.

Inserimos aqui a afirmação de Nelson Werneck Sodré (1969), um rápido e mesmo superficial exame do que a literatura já conseguira realizar mostra como o esforço criador consumira quase todas as suas possibilidades na poesia. Literatura era poesia, por assim dizer. Nem se compreenderia de outra forma até o fim do século XVIII. Só como poeta conseguia alguém se realizar literalmente, no reduzido círculo dos interessados. Não só a maioria esmagadora dos trabalhos surgidos do primeiro ao terceiro século era constituída de versos, como o verso era a forma alta, a forma nobre de traduzir o sentimento literário. A prosa era plebéia e vulgar. Quando a autoridade do autor a emancipava desse plano subalterno, constituía mero veículo: servia para concretizar a crônica, genealogia, elogio acadêmico, a narrativa de viagem, trabalho político ou histórico, o discurso parlamentar, jornalismo e algumas tentativas de moralismo e filosofia.

Tal movimento vem traduzir, não só no campo literário, as alterações já pronunciadas de uma sociedade em que novos fatores surgiam e velhos fatores mudavam de sentido e de força.

Ao lado do nosso romantismo e inseparável dele existiu no Brasil todo um cortejo de formas e idéias que convém por em relevo para a boa inteligência desse movimento, mas que não pertence, em verdade, à história da literatura. Houve uma política, uma sociedade, um clero obedientes à mesma inspiração que animou aquela escola de poetas.
O romantismo correspondente, pois, a um momento histórico do Brasil que, na história de suas idéias, traduz ainda a influência francesa. (CRUZ COSTA, 1969, p. 214)

Segundo Sodré, nosso romantismo, como expressão substantiva, trata-se de processo ultrapassado; como posição diante do homem e de suas relações, sinônimo de idealismo, sendo expressão adjetiva, existirá enquanto existirem determinadas condições sociais que o motivam. Neste último sentido, e só nele, está claro persistirem na existência brasileira, traços românticos, facilmente perceptíveis, denunciando a presença de restos ainda da estrutura colonial31.
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31 Algumas datas podem auxiliar e esclarecer o advento do romantismo no Brasil. Em 1825, José Bonifácio publica as suas “Poesias”, editadas em Bordeaux (França). Em 1832, Gonçalves de Magalhães publica o volume das “Poesias”, aparecido em Paris. A vida urbana, no Brasil, já sofrera alterações e, entre elas, com repercussão no campo literário, estava a do aparecimento de uma imprensa mais estável, com órgãos de vida longa e já não mais as efêmeras folhas políticas do primeiro e do segundo decênio do século. O Diário do Rio de Janeiro (1821) e o Jornal do Comércio (1827). “Suspiros Poéticos”, de Magalhães, surge em 1936. O importante é que se desencadeia, então, uma série de acontecimentos que prenunciam a mudança literária e que vão balizando o seu desenvolvimento até o instante em que o romantismo se define, caracteriza a sua vigência.

Com Joaquim Manuel de Macedo o romantismo brasileiro conhece o romance urbano. Sendo neste momento que a ficção conquista os leitores do tempo. Segundo Sodré (1969), em Macedo, o que aparece é a rua, a casa, o namoro, o casamento, o escravo doméstico, a moça conservadora, o estudante, o homem de comércio, a matrona, a tia, o médico, o político, a pequena humanidade que vive na Corte, que se agita em seus salões, que freqüenta o teatro, que se agrupa nas repúblicas, que povoa as lojas, que lê os jornais e que discute os acontecimentos do dia. São romances do trivial, compostos com uma graça sem sutileza, tendo excessos de acomodações, com a presença fiscalizadora e condutora do autor em todos os instantes, com uma intenção definida “a priori”, dentro de critérios morais fixos, rigorosamente padronizados, com o triunfo do bem e arremates bem arrumados, ficção comedida, vulgar, feita de pequenos fatos e de pequenas criaturas, sem tipos, sem relevos, sem asperezas, montada em relações cerimoniosas, fiel à realidade, nas minúcias, descambando para o inverossímil no conjunto – romance que, sob muitos sentidos, espelha o seu público, submete-se ao seu gosto e respeita as suas convenções. Macedo teve a habilidade de movimentar-se com desembaraço nos escolhos de um oceano de convencionalismos, conseguindo, apesar de tudo, fazer um público que se compunha principalmente de mulheres e de estudantes. Refletiu os sentimentos e também a trivialidade da vida social dos meados do século, sendo seu narrador miúdo, o próprio cronista, sempre distante de qualquer perigo, fugindo as fascinações extremas, rigorosamente autopoliciado.

O romance “A Moreninha”32 o primeiro do romantismo brasileiro, garantiu a Macedo o pioneiro eirismo de fato nesse gênero literário.

O título do livro surgiu do próprio protagonista do enredo, o personagem Augusto, em homenagem à Carolina. Durante o desenrolar da história, evidenciam-se os traços da protagonista, principalmente a cor do rosto: pele morena. Em vista disto, as pessoas mais íntimas chama-na de Moreninha.

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32"A Moreninha" constituiu-se numa pequena revolução literária no Brasil imperial, inaugurando o romance brasileiro, e é até hoje é reeditado com relativo sucesso e ainda é lido com prazer. Estudiosos da obra macediana observam que a protagonista do romance, Carolina, é uma clara alusão à personalidade e ao comportamento de Maria Catarina de Abreu Sodré, sua esposa e prima-irmã do poeta Álvares de Azevedo.
O sucesso de “A Moreninha”, que ganhou várias reedições ainda em vida de seu autor, está vinculado à capacidade do enredo de amarrar o leitor numa atmosfera de lenda e de sonho do romance, aguçando a curiosidade dos leitores com pequenos enigmas, conflitos simples e uma leitura fácil e agradável. Trata-se de uma obra composta para agradar o seu público alvo, formando na maioria de mulheres e estudantes.

A Literatura e a Psicologia



Com o título “Psicologia da Literatura”, pode-se designar o estudo psicológico do escritor, do tipo e do indivíduo, o processo criativo, o desempenho dos tipos e leis psicológicas presentes em obras literárias ou, finalmente, os efeitos da literatura sobre os seus leitores.

Dizendo sobre o fato psicológico da literatura, Roland Barthes afirma o seguinte:

O que se pode dizer acredita, é que a exploração da linguagem está no começo, ela constitui uma reserva de criação de uma riqueza infinita; pois não deve se acreditar que essa exploração é um privilégio poético, considerando-se que a poesia deve ocupar-se com as palavras e o romance com o “real”; é toda a literatura que é problemática da linguagem. (BARTHES, 1970, p. 79)

De acordo com Wellek e Warren (2003), a natureza do gênio literário sempre atraiu a especulação, e já no tempo dos gregos ele era relacionado com a “loucura”. O poeta é o “possuído”: ele difere dos outros homens, simultaneamente menos e mais, e o inconsciente do qual ela fala faz se sentir, ao mesmo tempo, como sub e supra-racional.

Outra concepção antiga e persistente afirma que o “dom” do poeta torna-se uma compensação:

(...) a Musa levou a visão dos olhos de Demôcoco, mas deu-lhe o adorável dom da canção (na Odisséia), assim como o cego Tirésias, é concedida a visão profética. Nem sempre, é claro, desvantagem e dom apresentam uma correlação tão direta, e a doença ou deformidade pode ser psicológica ou social em vez de física. O Poeta Pope era corcunda e anão; Byron era manco; Proust era um neurótico asmático, de ascendência parcialmente judaica; Keats era mais baixo que outros homens (anão); Thomas Wolfe muito mais alto (2,10 metros). A dificuldade com a teoria é justamente a sua facilidade. Após o acontecimento, qualquer sucesso pode ser atribuído à compensação, pois todos têm responsabilidades que podem servir-lhes de incentivos. Dúbia, certamente, é a difundida visão de que a neurose e a compensação diferenciam os artistas dos cientistas e de outros “contemplativos”: a distinção óbvia é que os escritores muitas vezes documentam os seus próprios casos, transformando suas moléstias em “material temático” (WELLEK e WARREN, 2003, pp. 94-95)

Machado de Assis era epilético, vesgo e mulato. As questões básicas a serem colocadas são estas: se o escritor, um neurótico (como Proust, que escreveu trinta páginas esperando o beijo da mãe para dormir) de onde tira o tema da sua obra ou é apenas a sua motivação? Outra questão: se o escritor for neurótico nos seus temas (como Kafka certamente o foi), o seu trabalho torna-se inteligente para os leitores? O escritor deve estar fazendo muito mais do que registrar um histórico do caso. Na afirmação de Wellek e Warren, o autor deve estar lidando num padrão arquetípico (qual Dostoievski em “Os irmãos Karamazov”) ou num padrão de personalidade neurótica amplamente difundido no nosso tempo.

A visão de Freud a respeito do escritor não é inteiramente estável. Como muitos dos seus colegas europeus, notadamente Jung e Rank, era um homem de cultura geral elevada que, respeitava os clássicos e a literatura alemã. Então, também descobriu na literatura muitos “lampejos” que anteciparam e corroboraram a seus próprios – em “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski, em “Hamlet”, de Shakespeare, no “Neveu de Remeau”, de Diderot, na obra de Goethe. Mas ele também pensava no autor, um neurótico obstinado pelo seu trabalho criativo, esquivando-se a um colapso e também a qualquer cura real.

O artista é originalmente um homem que se afasta da realidade porque não consegue entrar em acordo com a exigência de renúncia à satisfação instintiva quando ela se apresenta pela primeira vez e que, então, na vida da fantasia permite plana liberdade aos seus desejos eróticos e ambiciosos; mas ele encontra um caminho para sair desse mundo de fantasia e voltar à realidade; com os seus dons especiais, ele molda as suas fantasias em um novo tipo de realidade, e os homens concede-lhes justificativa como reflexos valiosos da vida real. Assim, por certo caminho, ele efetivamente, se torna o herói, o rei, o criador, o favorito que desejava ser, sem o caminho tortuoso de criar alterações reais no mundo exterior. (FREUD, 1961, p. 172)

Freud e Machado de Assis foram contemporâneos, sendo provável que o autor brasileiro jamais chegou a ler Freud, mas como diz o médico austríaco, criador da psicanálise, o escritor, alguém que sonha acordado, após realizar o sonho se valida socialmente. Em vez de alterar o seu caráter, ele publica as suas fantasias.

De acordo com críticos mais hodiernos, entre eles Ignácio de Loyola Brandão, Machado de Assis fez de sua heroína “Helena”, um tipo ideal de mulher, a que ele queria para si, e, diante da impossibilidade de tal sonho ser realizado, Helena morre, concomitantemente a seu sonho. Acaba se casando com Carolina, quatro anos mais velha que ele, e a quem dedicou um dos sonetos mais lindos da literatura brasileira: “foram anos idos e vividos”.

Aproveitando as palavras de Wellek e Warren (2003), em explanação um pouco confusa, na descrição de Freud, presume-se, dá-se conta do filósofo e do “cientista puro” juntamente com o artista, e, portanto, um tipo de redução “positivista” da atividade contemplativa ao observar e nomear em lugar do agir. Não faz justiça ao efeito indireto ou obliquo do contemplativo, às alterações no mundo exterior efetuadas pelos leitores dos romancistas e filósofos. Também deixa de reconhecer que a criação, ela própria um modo de trabalho no mundo exterior, pois, enquanto o sonhador se contenta em sonhar com escrever os seus sonhos, alguém esteja efetivamente escrevendo e se ocupando de um ato de exteriorização e de ajuste à sociedade.

No dizer de Wellek e Warren, a maioria dos escritores se esquivou a subscrever o freudianismo ortodoxo ou a completar o seu tratamento psicanalítico, onde alguns haviam começado. Não quiseram ser “curados” ou “ajustados”, pensando que deixariam de escrever se seguissem os métodos de seu psicanalista famoso, ou que o ajuste proposto fosse a uma normalidade ou a um ambiente social que rejeitavam como hipócrita ou burguês. Assim, W.H. Auden afirmou que “os artistas devem ser tão neuróticos quanto puderem suportar”.

Retomamos o ponto de vista de Wellek e Warren (2003), a teoria da arte como neurose suscita a questão da imaginação em relação à crença. O romancista é análogo não apenas à criança romântica que “conta histórias” – isto é, reconstrói a sua experiência até conformá-la ao seu prazer e crédito, mas também ao homem que sofre de alucinações, confundindo o mundo da realidade com o mundo de fantasia das suas esperanças e medos?